Esta é um figura contemplativa. Não é um deus bravo - é um *filho* de dois mundos. * *Espírito Monção** Sou filho do aguaceiro e do sol impaciente, um ser de monções, de ciclos desenhados entre o dilúvio e o deserto. A chuva vem primeiro — lava as palavras gastas, amolece o barro seco das certezas, faz rios das minhas frases antigas. Sob seu véu prateado, até o passado escorre, líquido, pelo ralo do tempo. Mas não basta esquecer, preciso do sol como um ourives precisa do fogo. Ele seca as gotas da indecisão, estampa no chão a sombra nítida do que quero dizer. Sua luz é faca e mel: corta o que sobra, adoça o que ficou. Ah, contradição que me mantém vivo! Se fico só na água, apodreço de saudade. Se fico só no sol, racho de orgulho. Mas no meio — entre o último trovão e o primeiro raio — encontro meu equilíbrio impossível: pés na lama, olhos no céu, enquanto minhas mãos, úmidas de esperança, escrevem no ar o que ainda vai nascer. Sou monção. Sou o intervalo entre a pergunta e ...