Espírito Monção - Partes I e II
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| Esta é um figura contemplativa. Não é um deus bravo - é um *filho* de dois mundos. |
**Espírito Monção**
Sou filho do aguaceiro e do sol impaciente,
um ser de monções, de ciclos desenhados
entre o dilúvio e o deserto.
A chuva vem primeiro —
lava as palavras gastas,
amolece o barro seco das certezas,
faz rios das minhas frases antigas.
Sob seu véu prateado,
até o passado escorre,
líquido, pelo ralo do tempo.
Mas não basta esquecer,
preciso do sol como um ourives
precisa do fogo.
Ele seca as gotas da indecisão,
estampa no chão a sombra nítida
do que quero dizer.
Sua luz é faca e mel:
corta o que sobra,
adoça o que ficou.
Ah, contradição que me mantém vivo!
Se fico só na água, apodreço de saudade.
Se fico só no sol, racho de orgulho.
Mas no meio —
entre o último trovão e o primeiro raio —
encontro meu equilíbrio impossível:
pés na lama, olhos no céu,
enquanto minhas mãos,
úmidas de esperança,
escrevem no ar o que ainda vai nascer.
Sou monção.
Sou o intervalo
entre a pergunta e a resposta.
Sou o instante
em que a terra ainda decide
se será flor ou lodo.
(E continuo —
molhado até os ossos
ou ressecado de tanto brilho —
porque o segredo não é escolher,
mas dançar no fio de prata
que separa a chuva do arco-íris.)
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P.S.: A dualidade como força criativa.
O último verso é um tributo à percepção de que é nos contrastes que a vida pulsa.* 🌦️
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| Esta imagem é contemplativa e cíclica.. Não é derrota nem vitória - é respiro. É Monção entendendo que repetir não é falhar. |
**Espírito Monção – Parte II**
E quando a dança parece terminar,
o céu muda de ideia outra vez.
Não há fim definitivo na monção —
apenas pausas que respiram.
Volto a ser nuvem carregada,
mas agora com memória de sol.
Carrego dentro do peito
o peso dourado dos dias secos,
o cheiro de terra rachada
que ainda guarda o nome da chuva.
Aprendi que a água não apaga,
apenas transforma.
O que foi queimado pelo sol
não vira cinza — vira semente teimosa,
esperando a próxima gota
para romper o silêncio da casca.
Agora sou mais quieto.
Não grito mais com o trovão,
escuto o que ele tenta dizer
antes de cair.
Não me queimo mais com o sol,
deixo que ele me atravesse
e pinte sombras longas
sobre as cicatrizes antigas.
Sou o mesmo e já não sou.
Filho ainda do aguaceiro e do fogo impaciente,
mas com as mãos menos trêmulas,
com os olhos menos cegos
pela própria luz ou pela própria sombra.
A monção continua em mim,
mas agora eu danço com menos urgência,
com mais reverência.
Sei que o dilúvio virá,
sei que o deserto também virá.
E entre um e outro,
aprendi a plantar.
Não mais apenas escrever no ar.
Agora planto palavras
na terra molhada e quente,
onde a chuva e o sol
se encontram sem guerra —
e, devagar, fazem nascer
algo que nem a água consegue levar,
nem o fogo consegue queimar.
Sou monção madura.
Sou o intervalo que já não teme o fim.
Sou o instante em que a terra
decide, finalmente, ser jardim.


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