Espírito Monção - Partes III e IV

Esta é a imagem da mudança sem ruptura.
Do Eu que não se distrói para recomeçar,
ele se molha, aquece, se molda.



**Espírito Monção – Parte III (Alquimia Interna)**



Sou o ponto exato onde a gota encontra o fogo

e decide não morrer, mas transmutar.

A chuva desce em mim como memória antiga,

lava os nomes que já não sirvo,

amassa o barro endurecido das antigas certezas

até ele virar argila maleável outra vez.

O sol sobe depois,

não para secar, mas para assinar.

Ele queima o excesso,

doura as bordas do que restou,

transforma a umidade em brilho,

a dor em transparência.

Não sou mais só água nem só luz.

Sou o vapor que nasce quando os dois se tocam —

nem líquido, nem seco,

um estado intermediário

onde o impossível respira.

Na varanda da alma,

a poça reflete o céu limpo

e o raio dourado corta a superfície que não quebra.

Ali, eu aprendo o segredo:

a verdadeira força não está em escolher um lado,

mas em sustentar os dois

até que eles se fundam

num terceiro elemento

que nenhum meteorologista consegue nomear.

Sou monção em estado puro:

o instante em que a terra

deixa de ser vítima da chuva

ou escrava do sol

e se torna jardim

por vontade própria.


A imagem do acordo.
Do amor que não exige que o outro mude
de clima, que só aceite dividir o céu.  



**Espírito Monção – Parte IV (Monção de Nós)**



Somos dois climas que se encontraram

e resolveram não guerrear.

Você trouxe o céu de brigadeiro,

eu trouxe a nuvem carregada.

Juntos, inventamos um céu novo —

nem totalmente azul, nem completamente cinza,

mas esse tom indeciso

onde o arco-íris se sente em casa.

Falamos em dialeto meteorológico:

eu digo “chuva” e você responde com luz.

Você diz “sol” e eu envolvo suas palavras em névoa suave.

Assim criamos nosso próprio sistema de pressão:

frente quente que nunca passa,

umidade que não apodrece,

calor que não queima.

Na varanda compartilhada,

o piso seca devagar

enquanto as raízes bebem em silêncio.

O poente não compete com a poça —

ele a ilumina por dentro.

Não somos mais “eu” e “você”.

Somos o terceiro tempo atmosférico,

o momento raro em que a terra

decide que pode ser

ao mesmo tempo

lama fértil e deserto dourado.

Aqui, até as pedras florescem.

Aqui, o vento aprende a carregar

não só gotas ou raios,

mas versos inteiros

feitos de água e fogo entrelaçados.

Monção de nós:

um fenômeno que os mapas não registram,

mas que as flores reconhecem imediatamente.

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