* Crepúsculo Paulistano *
Entre o poente das 17:45
e este agora noturno,
fica suspenso
o suspiro concreto da cidade
que desliga seus motores
para ouvir
o primeiro grilo.
Minha varanda é balsa
neste rio de asfalto iluminado —
os olhos pescam estrelas
que o dia trancou
no cofre do céu.
(O relógio da vida insiste
em me lembrar números,
mas meu pulso
agora bate
no compasso
dos vaga-lumes
que acendem
suas pequenas
urgências luminosas.)
O crepúsculo aqui é relógio de areia:
a parte de cima ainda guarda
últimos traços de azul,
a de baixo já virou
caixa de joias
onde a lua arruma
seus brincos prateados.
**O que permanece:**
o cheiro de chuva preso
nas folhas da amendoeira,
o rádio distante
sintonizado em estática cósmica,
e esta mão que escreve
versos-farol
para navios perdidos
no mar da noite paulistana.
🌆🌆🌆

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