*CREPÚSCULO URBANO*
Entre a tarde que teima em não morrer
e a noite que hesita nos faróis,
fico na varanda —
esta ponte frágil sobre o tempo —
a catar estrelas fugitivas
com as mãos vazias.
Elas, tímidas,
ainda se escondem do sol
como crianças que não querem banho,
enquanto o relógio da vida
(*aquele velho tirano de pilha*)
me sopra na nuca:
*"A contagem continua,
mesmo quando você para."*
O poente das 18:35h
agora é só um rubor no asfalto,
um resto de luz que se apega
aos vidros dos arranha-céus
como quem não aceita
que o dia foi embora
sem pedir licença.
E eu —
que deveria contar minutos,
medir horas,
preencher fichas do existir —
me perco no intervalo
entre o último pássaro
e a primeira lâmpada acesa.
Nesse instante crepuscular,
o tempo é um ourives mentiroso:
diz que fabrica eternidades,
mas só entrega segundos
que escorrem
entre os dedos
como fios de néon.
Ah, São Paulo!
Tu me ensinas que as estrelas
não desaparecem —
apenas se refugiam
nos anúncios luminosos
e no brilho dos olhos
de quem, como eu,
ainda teima em procurá-las
contra todos os relógios.

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