***Resiliência***

                            Entre cicatrizes e sementes, o humano se desdobra:.
não é pedra, mas rio que aprendeu a entalhar a rocha sem deixar de fluir.


*Geologia do Humano*


Entre cicatrizes e sementes,  

o humano é rio que talha a rocha  

sem deixar de ser rio.  


Sua carne — arquivo de quedas.  

Seus ossos — o mesmo pó que suspende montanhas.  


Dança antiga:  

curvar-se sob o peso das estações  

como bambu que beija o chão na tempestade  

e ao amanhecer  

ergue-se em folhas.  


Resiliência:  

tecer luz com fios de sombra.  

Assoprar brasas em cinzas  

até que a vida, insone,  

reacenda seu verbo.  


O mundo o fere.  

Ele responde com alquimia:  

— lâmina em asa,  

— adeus em compasso,  

— noite sem lua em mapa de constelações internas.  


(Nenhum abismo que não guarde,  

em seu fundo,  

uma escada de silêncio e espanto.)  


*"Como resistes?"*  

Ele sorri:  

*A luz mais pura nasce  

do atrito entre o escuro  

e a esperança.*  


Sua força?  

Não em evitar a queda,  

mas em inventar raízes  

enquanto cai.  


Somos madeira rachada  

reparada com ouro —  

nossas fissuras:  

geografia do que nos tornamos  

após aprender a respirar  

dentro da água.  


Ah, espécie paradoxal!  

— que mastiga caos e cuspe sentido,  

— que decifra a morte e insiste em semear.  


Resiliência:  

o fogo no âmago do junco.  

A teimosia divina da erva  

que rompe o asfalto.  


Somos a nota rouca  

que nasce na garganta  

após séculos de silêncio.  


A semente que dorme no deserto  

até que a chuva diga:  

*Agora*.


 

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