*O Homem a Ilha e o Farol*
🌊 POEMA: A ILHA QUE ERA UM HOMEM
Cheguei em pedaços,
não por acidente —
por entrega.
O mar não me trouxe:
devolveu-me.
A ilha não tinha nome,
nem eu.
Éramos dois estranhos
feitos do mesmo silêncio.
O farol —
meu irmão de pedra e luz —
não apontava para fora:
iluminava o abismo que eu carregava dentro.
Aprendi a ser ilha:
despi-me de mapas,
de memórias,
de âncoras.
Minha pele virou areia,
meus ossos, rocha,
meu sangue, maré.
O vento sussurrava:
“Quem se perde no mundo
encontra-se no centro.”
E eu, navegador de mim mesmo,
achei porto
no olho do furacão.
Agora,
quando a noite cai
e as gaivotas se calam,
já não sei onde termina o farol
e onde começo eu.
Somos o mesmo verso
escrito a luz e sal —
o mesmo canto
que ecoa do abismo
e não pede resposta.
Pois não há mais náufrago.
Não há mais ilha.
Só há o eterno diálogo
entre a solidão e o infinito —
e um farol que,
afinal,
sempre soube
que sua única missão
era iluminar a si mesmo.

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