*A Poça da Varanda*
"O segredo da poça - palavras não ditas,
guardadas sob o céu invertido.”
Crônica da Chuva e das Palavras Não Ditas
Era uma daquelas chuvas que não chegam de repente — anunciam-se no ar pesado, no cheiro de terra seca aguardando a primeira gota. Na varanda, o mundo se reduzia ao ritmo cadenciado da água batendo nas telhas. Cada pingo parecia trazer uma história, um fragmento de tempo condensado.
Observava os fios prateados escorrendo pelas fendas das telhas coloniais, aquelas que guardam memórias de outros verões. E em cada fio de água, imaginei palavras que nunca ousamos pronunciar. Palavras presas na garganta, engasgadas pelo medo, pela timidez, pelo momento que passou. Desciam agora com a chuva, lavadas das telhas da alma, escorrendo silenciosas em direção ao piso de cimento que as aguardava.
Formou-se uma poça irregular, um pequeno espelho efêmero. Quando a chuva afinal se retirou, tão gradualmente quanto chegara, a poça permaneceu ali — refletindo um céu invertido, um poente rosado que se despedia entre nuvens desfeitas. Naquela superfície límpida, todos os segredos não ditos pareciam repousar, guardados sob o manto líquido que os protegia do mundo.
E pensei, naquele momento, sobre probabilidades. Sobre como cada pingo cai aleatoriamente, como poderiam cair sobre um teclado e jamais formar uma palavra significativa. A lógica do mundo nos diz isso — que o acaso é apenas acaso, que sentimentos não ditos se dissipam no ar, que poças secam sem deixar rastro.
Mas então veio ela — a minha gatinha tricolor, que surgiu da sombra como um pequeno fantasma doméstico. Com seu andar silencioso, aproximou-se da poça, inclinou a cabeça como quem reconhece algo familiar. E então, com uma delicadeza que contrastava com o ato, ergueu sua patinha e bateu suavemente na superfície.
O reflexo desfez-se em mil fragmentos. O poente rosado estilhaçou-se em gotículas que voaram para todos os lados, levando consigo as palavras não ditas, dissolvendo-as num mosaico líquido que jamais seria remontado. A gatinha observou seu feito, satisfeita, e seguiu seu caminho, deixando apenas um piso úmido que já começava a secar.
Foi então que compreendi: a lógica governa as probabilidades, sim. Mas a criatividade — essa irmã dos sonhos — começa exatamente onde a lógica termina. As palavras que não dissemos talvez não precisem ser pronunciadas. Talvez sua beleza esteja justamente em seu silêncio, em como se transformam em outra coisa quando tocadas pelo acaso, pela poesia, pela pata curiosa de um gato.
A chuva voltará. Novas palavras não ditas escorrerão pelas telhas. E novas poças se formarão, guardando novos segredos sob céus invertidos. Mas agora sei que não são perdidas — apenas aguardam sua transformação, seu momento de se tornarem algo diferente do que eram, algo que a lógica não poderia prever.
A varanda secou. O céu escureceu. E em algum lugar, uma gatinha dorme, sem saber que, com um gesto simples, escreveu a crônica mais bela da noite.
“A pata que desfaz tudo – mosaico de segredos dissolvidos,
transformados em silêncio.”


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