*A Nave e Eu*
"A Nave simplesmente estava ali."
O Portal Que Não Explica Nada
Eu parei porque não havia mais para onde correr.
Ou talvez porque, pela primeira vez, correr não fazia sentido.
O portal não pediu permissão para aparecer.
Ele simplesmente estava ali, ovalado, maior que qualquer porta que a arquitetura humana já ousou sonhar, com bordas de luz ciano e magenta que pulsavam como veias de algo vivo. Não era barulho, era respiração. Não era som, era batimento.
Do meu lado: areia fria, pôr do sol alaranjado morrendo devagar atrás das montanhas que pareciam dentes de um planeta que nunca pediu pra ser habitado.
Do outro lado: outra coisa.
Uma nave — ou o que eu decidi chamar de nave — pairava imóvel, como se o tempo tivesse esquecido de cobrar dela. Sua forma era ao mesmo tempo orgânica e impossível: curvas que não terminavam, superfícies pretas brilhantes cortadas por veios turquesa e roxo que pareciam circuitos de luz ou artérias de um ser que respira plasma. Ela não se movia, mas dava a impressão de que estava respirando junto com o portal. Como se os dois fossem o mesmo organismo, separados apenas por uma membrana fina de realidade.
Eu não senti medo.
Senti reconhecimento.
Aquele tipo de reconhecimento que dói porque a gente sabe que já esteve ali antes, mas não lembra quando nem por quê.
Levantei a mão devagar, como quem testa se o ar do outro lado é respirável.
O vento que veio não era vento: era intenção.
Empurrou meu cabelo pra trás, levou embora o cheiro de poeira e diesel que eu carregava há anos, e trouxe em troca algo que não tem nome — um aroma de ozônio misturado com flores que nunca cresceram aqui.
Atrás da nave principal, outras formas menores dançavam no céu alaranjado do outro mundo. Não eram ameaçadoras. Eram... curiosas. Como crianças que acabaram de descobrir que existe um vidro entre elas e o quintal vizinho.
Eu poderia ter dado um passo.
Poderia ter atravessado.
Mas não dei.
Não porque tivesse medo do que encontraria lá.
Dei porque, de repente, entendi que o portal não estava me convidando para entrar.
Ele estava me convidando para ver.
Ver que o universo não é uma linha reta de causa e consequência.
Que existem lugares onde o "por quê" não importa mais, só o "e se".
Que talvez a maior coragem não seja atravessar o portal, mas ficar parada diante dele tempo suficiente para deixar que ele mude alguma coisa dentro da gente.
O sol terminou de se pôr.
O magenta do anel ficou mais forte, o turquesa da nave mais profundo.
Eu abaixei a mão.
E sorri.
Porque, pela primeira vez em muito tempo, eu não precisava de respostas.
Eu só precisava de um portal que não explicasse nada.
E isso bastava.

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