*Manifesto*
"Admirável Mundo Novo, que são se Vive, se Posta"
Vivemos em uma época que se lê demais, sem se conseguir ser sábio; que se sonha demais para poder ser sério; que se pensa demais para poder ser belo; vivemos em uma época em que o admirável mundo novo torna-se um admissível mundo novo.
Uma época em que há apenas um mísero passo do belo ao grotesco; vivemos em uma época de hábitos; em uma época em que poucos são lúcidos o bastante para rir da possibilidade estética de se viver sem motivo.
Em uma época em que se fecharmos os olhos, veremos além do infinito dentro de nossa imaginação; em que os dias se passam feito uma farsa lastimável no meio do cotidiano, feito um desenrolar dos fatos presentes, vivemos em uma época em que se pode encontrar tristezas com a mesma facilidade que se esquece um prazer.
Em uma época em que poucos são habituados ao sonho; em que já faz sentido nos cumprimentarmos como "companheiros de desespero". Vivemos em uma época em que elevar-se acima da terra não é forma de se merecer as estrelas.
Em que se mantém a vida de seres efêmeros em uma miséria suportável; em que Deus passou da moda, assim como a moral e o sentido da vida; vivemos em uma época em que hoje se sabe andar, porém nunca mais poderemos aprendê-lo; em que o nada descobre-se como tendo algo de bom em suas entrelinhas.
Vivemos em uma época em que o mais corajoso dos homens tem medo de si próprio; em que não chegamos realmente como neófitos ao teatro da vida; uma época em que a imparcialidade é uma mentira e o olhar livre trabalho árduo; vivemos em uma época em que viver é passear por alas da loucura; em que nosso grande crime foi o de ter nascido.
Vivemos em uma época em que, se vivermos dentro de nossos limites, veremos as luzes das ruas ofuscarem as estrelas e o luar reduzido a uma quase invisível irrelevância; em que ser descontente é ser não somente homem, mas homem condenado; em que as pessoas conhecem o preço de todas os produtos, mas o valor de nenhum deles.
Vivemos em uma época em que a mente humana não se desliga da consciência de sermos como somos; em que percebemos que nossos defeitos são tomados de nossa época, como herança estúpida que englobamos sem mastigar – e não nos demos conta.
Vivemos em uma época que mudou pouco – ou quase nada em relação às épocas passadas; em que dizer-se um histrião no mundo é uma visível redundância; vivemos em uma época em que não queremos mais causas nobres, e sim as mais vantajosas.
Em que crer em fortunas efêmeras não é crer em alegrias fugazes; em que nada do que o dia vê é definitivo; em que temos grilhões e limites estreitos, restrições e “não” por toda parte; vivemos em uma época em que o pouco que se pode aprender não é quase nada em comparação com o que se pode ignorar.

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